Entrevista: O crítico literário e escritor, Vinícius Jatobá, conversa com o Aperte(o)Botão.

O Aperte(o)Botão inicia agora uma seção dedicada a entrevistas. Como hub literário que somos, dedicaremos este espaço a todos os profissionais que tem interface com a literatura.

Nosso primeiro entrevistado é o crítico literário e escritor Vinícius Jatobá. Conhecido por suas colaborações para os suplementos literários ‘Sabático’ do jornal Estado de São Paulo, ‘Prosa e Verso’ do carioca O Globo e para revista Carta Capital, Vinícius teve, recentemente,  seu trabalho como ficcionista reconhecido pela edição brasileira da Revista Granta.

Ele figura na lista de 20 escritores com menos de 40 anos considerados pela publicação os novos talentos de nossa literatura.

Vinícius Jatobá é crítico literário e escritor carioca.

Abaixo ele fala um pouco sobre sua carreira como crítico, a escolha para a lista da Granta e o ofício do escritor.

A(o)B : Quando você começou a atuar como crítico literário?

Vinícius Jatobá: Desde 2002, mais ou menos. Escrevi para mídia alternativa em Santa Teresa, que é um bairro carioca muito conhecido pela sua vida artística e boêmia. Meu desejo, muito motivado pela minha admiração pelos escritos de Gabriel García Márquez e Guillermo Cabera Infante, sempre foi ser critico de cinema, mas o jornal tinha espaço para textos sobre literatura e decidi que valia, pela experiência, começar a publicar resenhas de livros que admirava na época. Era um momento em que lia quatro, cinco livros por semana. Logo tomei gosto e comecei um blog chamado “Leitor Compulsivo” que me fez ser relativamente conhecido e por meio do qual alguns editores de suplementos me chamaram para colaborar profissionalmente. Milton Hatoum foi uma figura chave porque ele gostou do que escrevia e decidiu, de forma muito generosa, me apresentar também para alguns editores de suplementos literários, que decidiram apostar no meu trabalho.

 A(o)B: Para você, o olhar do crítico e do artista em relação a uma obra é muito diferente? A sua atuação como crítico interfere muito no seu trabalho como ficcionista?

VJ: Depende muito daquilo que te motivou a escrever crítica. Quando comecei a escrever resenhas achava que os suplementos literários eram super bem-escritos mas completamente duros na linguagem, sem malícia, e então queria fazer algo mais agressivo, mais sinuoso. Então quando escrevo crítica penso sempre que não devo entediar o leitor, é minha única obrigação, que ele deve sentir algum tipo de emoção quando lê o texto, e acho que esse é um ponto de contato com as narrativas que escrevo, o que quero é mover o leitor a sentir algo que ele não está disposto a sentir naquele momento. Recebo mensagens de leitores que dizem coisas completamente emocionais do tipo “li sua resenha e me ajudou a lidar com a morte do meu cachorro”. Foi uma resenha de um livro belíssimo do Banville chamado O mar que começava assim, “A morte é o pórtico das almas”, demorei dias escrevendo essa resenha. E fiquei satisfeito com a emoção do leitor. É o que vale. Mas cada crítico usa seu ofício de forma particular. Não tem uma fórmula.

A maior influência no trabalho de escritor é que você lê os livros com atenção e acaba pensando naturalmente em como eles são feitos. Como se maneja o tempo, o espaço; como se constrói a linguagem; quais são os limites de determinado narrador. Você mede muito atentamente a distância entre o projeto do autor e sua realização. Então acaba que te ajuda a construir uma voz narrativa. No meu caso, foi essencial. Por outro lado, também ajuda a diluir bastante certas figuras do mercado editorial, como o editor. Quando você começa a escrever crítica naturalmente fica mais atento ao que se publica e começa a perceber que os editores são humanos, são falíveis, acertam e erram, e que o tempo da literatura é lento, muitas vezes contraditório. No começo quando um livro meu era recusado, algo que aconteceu dezenas de vezes, passava mal, era uma situação bélica; depois entendi como é difícil para os editores encontrarem bons manuscritos e até saberem quem é realmente bom naquele manancial de material que recebem diariamente. Trabalhar com crítica faz você relaxar. Você pondera, e relaxa. Deixa de ser inclemente com os editores, eles estão em uma posição muito fragilizada. E se aquilo que você faz é bom, um dia chega a sua vez.

A(o)B: Você acaba de ter um conto escolhido pela edição brasileira da revista Granta. Como foi o processo de escrever Natureza – Morta? Você esperava esta recepção ao  seu trabalho quando terminou o conto?

VJ: Era o projeto de um romance que abandonei porque estava muito palavroso. Não se chamava Natureza-Morta. Tinha outro nome: Vozes de Família. Que é o nome de uma peça do Harold Pinter devastadora, linda. E abandonei porque estava sem norte, parecia interminável. Abandonei vários romances. Um tinha o nome absurdo de Quando Tudo Nada. Era sobre um homem lidando com a morte súbita de um vizinho e a culpa porque acredita que poderia ter feito algo para evitar. Mas o título, convenhamos, é muito ruim. Outro se chamava Asfalto e era sobre a violência do tráfico de drogas no subúrbio. Escrevi um chamado Afinidades Eletivas, um livro erótico. É um gênero que me interessa muito, literatura erótica. Livros policiais e pornográficos são aqueles que mais me fascinam atualmente. Hoje consigo compreender melhor alguns sentimentos envolvidos nessas narrativas que abandonei. A técnica estava lá, mas a compreensão dos sentimentos me escapava. Mas se você está escrevendo sobre algo que pode escrever não está forçando sua imaginação o bastante, é minha forma de ver o trabalho literário. Tem que existir algum tipo de exploração, desconforto.

Sempre admirei e apreciei muito arte, pinturas, minha monografia de sociologia da arte foi sobre Paul Gauguin, e um gênero que amo é a natureza-morta. Então estava vendo um catálogo sobre o gênero e tive um estalo: poderia trabalhar toda uma época como o pintor escolhe os elementos para dispor sobre a mesa em uma natureza-morta. E o conto tomou forma. Há por trás do conto muito de Faulkner e Woolf, principalmente Ao Farol. E, claro, esse inclassificável As Ondas. Se você ler a parte “O tempo passa” de O Farol está ali tudo que tentei fazer com “Natureza-Morta”. O fato feio sobre livros é que livros sempre nascem de outros livros. Quando li o edital da Granta cortei metade do conto para encaixá-lo no que pediam e enviei. Fiquei surpreso que tenham aceito meu texto para entrar na antologia. Ainda mais sendo um fragmento dele. Duas das partes mais devastadoras, a epidemia de meningite no subúrbio carioca, que acho que merecia por si só uma estória separada, e o confuso dia do golpe militar que ficou, em “Natureza-Morta”, junto do lendário discurso de Goulart aos trabalhadores, um dos momentos mais bonitos e essenciais da nossa história recente, essas partes ficaram de fora. Tenho algumas decisões a fazer.

Sempre tive uma confiança agressiva no meu trabalho; no entanto, como crítico literário, tive o prazer de ter contato com textos de dezenas de bons autores jovens brasileiros e estaria mentindo se dissesse que acreditava que entraria na Granta. Fiquei surpreso demais com a minha seleção. Foi um dos dias mais importantes da minha vida, e não é exagero. É um privilégio ser escolhido pelo juri da Granta, algo que justifica todos esses meus anos de trabalho.

A(o)B: Como foram as críticas ao seu conto e à antologia de maneira geral?  Ficou satisfeito?

VJ: Tenho recebido muitos cometários emocionais ao meu conto, que é o que esperava. Alguns amam, outros odeiam, mas o importante é gerar alguma emoção. É a única coisa que desejo quando escrevo: emocionar, desestabilizar, provocar. É claro que é interessante passar para o outro lado e ser lido. Tem uma turma que não leu e não gostou, e tem gente magoada, tem de tudo; mas há algumas surpresas, escritores que jamais imaginei que soubessem meu nome e que mandaram mensagens.

Quanto ao que falam especificamente os críticos literários sobre o livro não acredito que seja da minha competência questioná-los. Faz parte do jogo. Mesmo quando é malicioso e sinistro, como tem sido o caso em alguns poucos cometários, não acredito que seja da minha alçada defender o livro. Até mesmo porque como crítico nunca escrevo para o autor e sempre para um público geral. Então não é uma carta direta e endereçada ao meu trabalho que o crítico faz ao escrever sobre a Granta, mas sim algo mais nobre, quero acreditar, um debate cultural amplo, fundamentado.

A(o)B: Na sua opinião, a literatura é uma arte difícil e solitária como colocam alguns escritores?

VJ: Literatura é uma arte complexa porque chega um momento em que os sentimentos ou são muito diferentes daquilo que você está habituado a sentir ou te levam para algum espaço emocional que você não gostaria de visitar mais. Contudo, escrever prosa é uma atividade magnífica. Tentar equilibrar sentido, emoção, ritmo e som, construir esse fraseado emocional, é um prazer infinito. Quando escrevo não sinto o tempo passar. E sou um estudante. Quero melhorar, melhorar sempre. É um processo sem fim.

A(o)B: Muitos autores ambicionam ter um romance publicado, e , de preferência, na lista de mais vendidos.  Para você, todo o escritor é um romancista em potencial ou existe uma forma literária mais adequada a cada voz?

VJ: O que existe é que cada estória tem uma linguagem própria e principalmente uma duração particular. Penso que o que difere um romance de uma novela é algo muito simples: no primeiro se fala mais do que se cala, e no último se cala mais do que se fala. O que determina é a sapiência do narrador, o que ele pensa, é isso que determina a duração da voz dele.

Nesse caso tem uma escritora que me ajudou muito a entender como poderia explorar meu talento: Alice Munro. Cada conto de Munro é como se fosse um romance, cada parágrafo possui força e densidade e concentração, e quando li Alice Munro me senti muito liberado de toda pressão que sentia para escrever um romance. Pensei: o que importa é a sapiência. O que essa estória sabe sobre o que nós somos, e quando você pesquisa isso percebe que o número de páginas não tem a menor importância. Um bom editor vai saber encontrar uma forma de fazer com que essa narrativa encontre seu melhor formato livro; o editor ruim, que pensa em número de páginas, esse não sabe nada da vida.

E para terminar acredito que não há nada de errado em um livro ser bem vendido, ao contrario: é desejável que ele alcance o maior número possível de pessoas, sem discriminação, toda e qualquer pessoa. Em edições bonitas ou vagabundas, não importa. Você passa incontáveis horas trabalhando em algo e é natural que deseje ser lido de forma ilimitada por uma legião de leitores. É completamente estranho pensar o contrário. Não faz o menor sentido. Livros deveriam ser patrimônio de todos, com acesso rápido, barato e ilimitado. Adoraria que no Brasil existissem edições vadias de papel-jornal. Sou apaixonados por elas. E antes que achem isso horrível, quando estive em NY estudando cinema vi Roth, DeLillo, Franzen e Morrison, quatro peso-pesados, em edições assim, custando míseros 4 dólares, algo que me emocionou bastante porque qualquer um pode ter acesso a esses autores, e é um privilégio escrever em um país em que livros não são tratados apenas como artigos de luxo. Você atende leitores que vão dos 30 dólares aos 4 dólares, sem discriminação, o que é o supra-sumo da democracia.

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